Um senhor da Rua Quitanda vende
Uma carne, que ele não sabe,
Se é de Guiné ou de Luanda,
Ou se é de Angola ou da Mina…
Vende, vende na maior cara de pau,
Carne de mulata, de 38 anos.
Tão acostumado,
Tão protegido pelas leis,
Que até se esquece que a mulata,
Contrariando as “leis do parto”,
Tem um “filho de três anos”.
Que pode ser bem
O filho do seu dono!
Um senhor vende seu corpo de trabalho:
Uma mulata, de 38 anos.
Não coloca o seu nome
(será que envergonhado?)
Só indica o lugar:
Rua da Quitanda, nº 20.
Calejado nas transações de carnes,
Sabe que as carnes envelhecidas valem menos
Porque já não servem para o trabalho.
Ciente disso, no seu pensamento lixo,
Busca compensar a velhice da mulata:
Não diz que ela é bonita, cheia
De amor e de carinhos:
Acena com uma vantagem no negócio:
A mulata de 38 anos tem
- um filho, branco, de três aninhos…
O senhor da Rua da Quinta, vende
Quer vender urgente a mulata com o filhinho,
Porque precisa comprar urgentemente:
uma menina negra, entre dez e doze anos…
Rui de Ribeira
